Não se assuste. Não vou versar sobre filosofia, nem sobre religião, mas também não vou falar sobre algo extremamente importante. Caso tenha alguns minutos e muita paciência, pode continuar a ler.
Sempre gostei de escrever, mas há alguns anos que não deixo minha inspiração tomar conta, a pobre esteve, durante alguns anos, (fortemente) amarrada e amordaçada pela banal objetividade do meu dia-a-dia ( e não me espanta caso a pobre não queira dar as caras agora, afinal de contas, ainda deve estar chateada pelos anos de clausura! Logo, não garanto a qualidade deste texto). Afinal de contas, quem pára no meio de uma terça-feira para puramente escrever sobre coisas sem fim prático algum?
Resumindo, passei anos dedicando-me ao prático, ao objetivo, durante incontáveis terças-feiras. No entanto, numa dessas terças-feiras, um aluno me disse: - Terça-feira é um dia tão bobo...não é terrível como segunda, não tem happy-hour ou ou futebol como na quarta e nem é perto do fim de semana como a quinta! Fui obrigada a concordar. Ele não tem idéia, mas sua breve observação teve um efeito avassalador sobre a mim.
Até que ponto eu estava transformando minha semana inteira em terças-feiras? Em dias sem propósito algum a não ser, chegar ao final do dia? Tentando ao menos ter aquela sensação de “missão cumprida”? Desde quando minha existência se tornou uma longa missão a ser cumprida, ou seja, uma infinita terça-feira?
Aquela coisa toda de “terça-feira” me deixou um tanto quanto perplexa, até que, me lembrei de que neste ano meu aniversário vai cair, (adivinhe?), numa belíssima terça-feira! Num primeiro instante fiquei frustrada, meu aniversário seria mais um dia a ser fatalmente esquecido. Já desanimada, maldizendo a folhinha pendurada na cozinha e desejando ter nascido sob a vigência do calendário chinês, me lembrei do meu professor de chinês, sempre tão calmo, alegre, mas sem rompantes de euforia...e a sua imagem me pareceu tão confortante, tão tranquila, tão estável...e não pude evitar de compará-lo a uma terça-feira, pela calma, estabilidade e por que não, conforto?
Percebi então que estava cometendo uma enorme injustiça contra a pobre da terça-feira e decidi não mais chamá-la de banal, mas sim de “trivial”. Os termos são bastante semelhantes, contudo, “trivial” me parece menos pejorativo e tem até um certo tom de “essencial”, ou seja, aquelas coisas pequenas, menores, mas sem as quais não se pode viver sem, como arroz e feijão, pasta de dente, amaciante de roupas...entre outros, e como disse anteriormente, não se pode viver sem eles, logo, realmente foi um erro usar a palavra “banal”.
De fato, seria muito mais acertado chamar os extremos, ou seja, os fatos extraordinários de “banais”, pois pode-se, felizmente, viver sem eles.
A questão é que somos diariamente bombardeados por todos os lados com a idéia de que, quanto mais, melhor, e tal fato se dá também para os sentimentos, ou seja, uma felicidadezinha não basta, o ideal é estar à beira da euforia, ou mesmo o amor,(o famoso ou famigerado amor), não basta você achar um companheiro que vá ao mercado com você, é necessário que ele mate ou morra por você, no entanto, eu pessoalmente prefiro a primeira opção! Não preciso de suicidas nem de matadores, não preciso estar diariamente à beira da euforia, muito pelo contrário, meu pobre coraçãozinho não agüentaria tamanha montanha russa!
Voltando à imagem do meu professor, (prometo que está acabando!), a mesma me lembrou, inevitavelmente, a teoria budista do caminho do meio,(ou a Aristotélica do meio-termo) segundo as quais o estado ideal é o localizado próximo ao meio-termo, a sensatez, o bom senso, nem demais, nem de menos. Em ambos os casos, os extremos são considerados vícios, de forma que o excesso de coragem é impulsividade, excesso de cautela é covardia e seguem por esse caminho. Veja bem, não estou dizendo que arroubos de alegria ou paixão sejam vícios (quem disse isso foi Aristóteles!), o perigo mora exatamente em se querer viver dessa forma em tempo integral, primeiro, porque seria impossível, segundo, isso criaria uma frustração imensa e terceiro, essa ânsia de viver à beira de um ataque cardíaco não nos deixaria ver aqueles pequenos detalhes tão significantes e essenciais que já citei antes.
Por fim, escrevi todo esse texto enorme apenas para dizer que para cada dois dias de fim de semana existem cinco dias da semana, numericamente falando é mais do que o dobro, sendo assim, decidi não esperar por sábados, domingos ou momentos extraordinários, decidi aproveitar minhas idas ao mercado, o cheiro de amaciante que o vento traz quando minha mãe lava roupa, pães quentinhos com manteiga e por que não, as minhas triviais terças-feiras?
Por que “Entre pontos Cardeais”? Ora, muito simples. Não quero me ater a assunto nenhum. Quero demonstrar meu interesse por toda e qualquer coisa, (ou mesmo não-coisa) que possa estar localizada entre os quatro cantos deste universo, ou mesmo de outro. Usei o termo “coisa” pois também já quero adiantar que não me aterei às regras científicas. Isso não passa de um mero espaço em que dou vazão aos meus turbulentos pensamentos, sendo assim, não espere grandes revelações ou verdades absolutas. Espere apenas a minha perspectiva de mundo, ou mesmo a perspectiva de outras pessoas em contraposição à minha.
A inspiração veio do chinês, (sim, eu estudo chinês), pois o termo “coisa” em chinês pode ser traduzido como “dong xi”, ou seja, leste e oeste, dessa forma, tudo que esteja entre o leste e o oeste.
Minha intenção ao levar meus textos a público é a de tentar esclarecer um pouco os cantos desse meu mundinho particular, e quem sabe, no meio dessa jornada errante, achar alguém que consiga entender este vasto universo e quem sabe até, tenha as mesmas dúvidas e explicações que eu.
Assim como os grandes navegadores lançaram-se ao desconhecido, a um mundo de temores, monstros, mitos e maravilhas, também lanço-me ao desconhecido, tentando traduzir em palavras vagos conceitos, sensações e sentimentos, guiada apenas pela bússola da minha falha percepção humana, (já adianto que minha bússola não aponta apenas para o norte!), a qual me confunde como as ondas, me conforta com suas águas mornas e transforma-se como as marés, enquanto tento não me afogar num revolto mar de divagações.
Desejo a todos, (inclusive a mim), boa sorte! E que o mar esteja para peixe, ou melhor, para textos!
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